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Volta ao mundo em 23 dias [5]

Posted by Luana on 10:16 in ,
Entao, chegamos ao norte da ilha de Zanzibar dentro de um Dala-Dala, nos perdemos e finalmente encontramos nosso hotel. Eu e maridon somos um casal de cagoes pessoas organizadas, entao nosso hotel estava reservado fazia 3 meses. Voce ta afim de ficar sem hotel em Zanzibar? Entao...

Chegamos ao nosso hotel e alguem nos disse para esperar no restaurante do lugar, enquanto nossa reserva era checada. Gente, era um lugar com uns 6 ou 7  bangalôs, entao quando comecaram a demorar pra dar alguma resposta comecamos a achar que a tinha alguma coisa de muito errada.  

Foi quando apareceu o EspertusFalsyantis... Voces conhecem o tipo. Eh aquele tipo de mutante que aparece em toda familia/grupo de amigo/trabalho. O cara (que pode ser uma mina) que pensa que todo mundo eh tonto, menos ele. O sujeito que acha que qualquer explicacao eh valida. Esse tipo ocorre em todas as crencas, etnias, paises, generos, orientacao sexual, gosto musical, time de futebol. Eh como os caras do Sense8, espalhados pelo mundo, mas conectados pela malemolência e cara de pau peculiar da especie. 

O cara chegou nos dando uma bronca. 

- Tem um problema aqui, voces nao viram que a sua reserva foi cancelada? Nos mandamos um e-mail (cabecinha movendo-se de um lado para o outro, mostrando descontentamento com o nosso aparente erro) 

O Maridon, que eh uma pessoa mais cagona organizada do que eu, tinha impresso e-mails trocados com o hotel, um deles de uma semana anterior, em que ele ofereciam alguem para nos buscar em Stone Town (a um preco bem salgado, obviamente). Comecou uma discussao, claro...

Dai, quando o EspertusFalsyantis viu que esse papinho de colocar a culpa nos hospedes nao ia funcionar resolver culpar o Booking.com, onde tinhamos feito a reserva. Ele comecou, muito indignado a falar:

- Veja so, o Booking sempre faz isso conosco. Nos temos apenas 6 quartos e estamos lotados, nao tem lugar pra voces. A culpa eh do Booking, nos fizemos tudo certo. Mas nao se preocupem, eu levo voces ao hotel mais proximo (olhinhos brilhando de felicidade por ter uma "solucao" pro nosso problema)

So que isso nao faz o menor sentido, ja que quem oferece vagas no Booking eh o proprio hotel. Sao eles que indicam quantos quartos existem e se estao lotados ou nao. Insistimos que eles tinham inclusive nos oferecido buscar na capital. Era claro que o que tinha acontecido era outra coisa. Algum turista deve ter oferecido mais, ou reservado por mais tempo, e eles por pura falta de etica, resolveram nos chutar. Olhando no TripAdvisor quando voltamos de viagem vimos que naquele periodo a mesma coisa tinha acontecido com outras pessoas. Falta de carater pura! Alias, em outro caso, eles ofereceram um lugar provisorio para dormir, que consistia num quarto sem porta, onde ratos passeavam a noite... EIKE DELICIA!

Bom, nao adiantava muito brigar. Depois de tudo isso quem nao queria mais ficar la eramos nos. O cara ainda insistiu que ia nos levar ao hotel mais proximo, como se isso fosse uma puta ajuda! Ele ia pagar o hotel? NAO! Ele ia ver se tinha vaga em outro hotel? NAO! Ele ia apenas nos deixar na porta de outro hotel e ficar por isso mesmo... FEADAPUTA! Pra quem chegou nesse post por querer viajar pra Zanzibar/Nungwi, NAO FIQUEM NO Ras Kajibange.

Saimos bem emputecidos de la, carregando as malas... Felizmente, andando pela praia, descobrimos varios hoteis. Como estamos bem de saco cheio entramos no primeiro... Era apenas o Hilton... HAHAHAHAHAHHAHA...

Entramos pela praia, e logo veio um seguranca nos abordar. Ele foi super simpatico, mas ficou logo bem claro que nao era todo mundo que podia entrar ali, a praia era privada. Pedimos para ir ate a recepcao pra ver se tinha lugar. Era alta temporada, varios lugares ja estavam lotados quando fomos fazer nossas reservas, 3 meses antes. Contudo o Hilton eh um hotel mais caro, entao ainda tinham vagas. A pobre da mulher da recepcao teve que me ouvir reclamar do tratamento que tinhamos tido do outro hotel. A mulher tinha culpa? NAO! Mas quando a gente (eu) esta revoltado pegamos o primeiro pra cristo, nao eh? Enquanto faziamos check-in num hotel que era varias vezes mais caro do que iamos pagar no outro (eike alegria!) eu fui ligar pro Booking, pra cancelar nossa reserva no outro hotel. Isso porque o outro hotel poderia simplesmente cobrar as diarias do nosso cartao de credito. Tente ligar, do seu celular belga, do norte de Zanzibar, para a central do Booking na Inglaterra... Agora tente fazer isso com um celular pre-pago. Pois eh, meus amigos, o maridon eh muquirana e tem um celular bacanao, so que PRE-PAGO!!! Que ano eh hoje?

O meu celular tinha ficado na Belgica, pois achamos que nao iamos precisar de dois e que levar o pre-pago seria uma melhor opcao.... NAO FOI! 

Os creditos morreram em 1 nano-segundo... Dai pedimos pra usar o telefone do hotel. Ja tentaram usar o telefone do hotel para ligar pra central do Booking.com na Inglaterra? Eh o preco de comprar um celular, sabe....

Enfim... Ligamos pro booking, cancelamos nossa reserva nos putos do hotel do lado e fizemos nossa reserva no Hilton, porque somos ricos mongos e nao tinhamos outro lugar pra ficar. Vale dizer que dessa confusao toda conseguimos uma boa grana, paga pelo Booking, entao o rombo nao ficou tao feio... 

Ta... Hotel resolvido... Olha a vista do nosso quarto.

Eike lindo!
 Bonito, nao eh? Eu gostei muito... O quarto era grande, agradavel e tinha uma sacadinha que dava pra essa vista. Ali no meio tem uma psicina com um bar, pra voce se refrescar e encher a cara ao mesmo tempo. Uma boa parte dos hospedes estava la num esquema "tudo incluido", comendo e bebendo o dia todo. Nao foi o nosso caso e acredito que fizemos a melhor escolha, porque assim tinhamos liberdade de comer em outros lugares.

A praia era muito bonita, com uma mare muito louca q subia e descia muito em quartao de poucas horas. Nessa foto mesmo esta alta, entao mal da pra ver a praia. Voces podem ver que existe um muro separando o nosso hotel da praia publica, logo descobrimos porque. 

Da pra ver o murinho?
Bom, o lugar era muito legal, mas quando a gente descia o muro pra ir a praia grudava gente. Os caras tentavam vender coisas, oferecer passeios de barco. Coisa muito chata! Voce tinha que descer e ja entrar correndo no mar, porque senao vinha gente falar contigo, um apos o outro... E nao dava pra falar "nao quero, obrigada", porque a pessoa comecava a contar da pobreza, tentar fazer mais barato, falar, falar e falar... Desagradavel, quando voce quer apenas curtir a praia. Andar a beira do mar pra ver o por do sol? Esqueca... 

Tudo isso me incomodou bastante... Incomodou porque eu queria paz e porque de fato sao pessoas pobres tentando ganhar algum dinheiro. Na parte de tras do noss hotel dava pra ver a vila de pescadores, o povo local, e as casinhas muito simples em que eles moram. Nao sei voces, mas eu nao consigo ficar la, deitadona no sol, ignorando gente que vem pedir ajuda porque nao tem o que comer. O abismo entre nos, os hospedes do hotel e a populacao local eh gigantesco. 

Deixa eu colocar outra foto bonita aqui, pra continuar a falar de desigualdade social.


Escrevendo esse post, nessa semana em que um garoto sirio foi encontrado morto as margens de uma praia na Turquia, me fez pensar ainda mais nas coisas que eu vi la na Tanzania. O garoto foi encontrado nas praias de um Resort. De um lado pessoas desfrutando suas ferias, entrando no mar, comendo e bebendo, e do outro pessoas fugindo de uma guerra e perdendo suas vidas por causa disso. Muitos dizem que a justificativa de ter grandes hoteis em lugares paradisiacos como Nungwi (Zanzibar) eh pra melhorar as condicoes de vida da populacao local. Honestamente? Eu nao creio que esse trabalho seja feito de maneira convincente. A populacao local, camareiras, cozinheiros, jardineiros, segurancas, garcons do nosso hotel estao num abismo social muito longe de nos, os hospedes. Eles nao terao acesso a educacao, saneamento, alimentacao, cultura que nos temos. Eles nao terao acesso ao tipo de emprego e remuneracao que nos temos. Eles nao serao vistos como pessoas "de bem" como nos somos vistos. Isso lembra alguma coisa? 

"eu acredito na meritocracia" - SQN
Por mais que eu tentasse evitar, ficava muito claro a diferenca. A distancia entre eles e nos eh tanta que eh dificil nao ve-los com outros olhos. O rapaz que vem tentar vender alguma coisa vira apenas um estorvo, um problema pra quem quer desfrutar das belezas da praia. Todo o fator social, o problema humanitario se perde ali. Eh como nos fazemos no Brasil, quando um mendigo nos pede alguma coisa, ou uma crianca de rua nos aborda. A desumanizacao eh evidente! 

O que eu quero dizer com tudo isso eh que o passeio foi maravilhoso, as praias sao lindas, com agua clara e quente. Dava pra ficar horas dentro do mar - que eh o que eu mais gosto de fazer - e aproveitar pra tomar muita agua de coco e comer frutos do mar (a precos bem acessiveis). So que um tanto da beleza e fascinacao do passeio e do lugar foram ofuscados pela pobreza e desigualdade social que vi ali. Pelo sentimento de impotencia e. sim, de culpa e responsabilidade. 

Tem essa foto que tirei, quando estavamos para entrar num passeio de barco, que eh muito bonita e ao mesmo tempo, muito triste.


E eu termino esse post assim. Nao consigo contar sobre passeios e risadas numa semana com tantas tragedias humanas. Isso eh uma novidade? So aconteceram tragedias ESSA semana? Certamente que nao, elas existem o tempo todo, em todos os lugares do mundo... E enquanto a gente nao eh confrontado com isso, vivemos nossas vidas normalmente, reclamando da Carmen Elektra da academia, ou da comida do restaurante da usina que veio muito salgada. E fazemos piadinhas de coisas bobas e rimos de videos de bebes com gatos... 

Mas dai a realidade do mundo nos da um tapa desses na cara... E meu, o que estamos fazendo com esse planeta? 



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8 Comments


Acho que é o primeiro relato realmente verdadeiro que leio de Zanzibar.
Maíra


Ai nem me fale mulher... hj mesmo no parque com as kids que cuido falei com uma albanesa que tem asilo em Lyon. Papo vai papo vem... ela trabalhando no black e esperando o pai da kid 45min atrasado me fala de grana: 150€ POR MES pra trabalhar 20h/semana. Tudo isso pq é no black e ela quer complementar a grana que o governo da pra ela viver em Lyon. Tentei ver pelo lado positivo: ela nao se deixou abalar e mesmo ganhando a ajuda do governo nao se contentou e foi atras de grana extra, ela fala um frances cheio de sotaque e com mtos erros mas fala, se vira, tenta como pode. E ela? puff.. deve ter uns 19anos no maximo.


1º - Acho que no seu lugar eu seria uma completa bundona e começaria a chorar quando o cara me dissesse que tinha cancelado a reserva. Eu ia acabar seguindo o conselho de ir para outro lugar e chegando lá, já sozinha no quarto, me colocaria a chorar de raiva percebendo tudo que tinha realmente acontecido.
2º É bizarro o contraste que vemos em alguns lugares. Eu às vezes não sei como agir em certas situações, como na sua por exemplo, você quer ajudar, mas não dá pra abraçar o mundo. Você tenta ir fazendo a sua parte por menor que seja e espera que no fim isso faça alguma diferença.


Muito rico esse seu relato sobre a Tanzânia. Por varios motivos, mas principalmente por esse paralelo que você faz entre o turismo e a vida dos locais. Eu fico até aliviada quando leio que ainda existem pessoas que se deixam afetar por isso porque às vezes tenho a impressão de que todo mundo fechou os olhos para a miséria humana, que estah à nossa porta. Não é preciso ir à Siria ou à Turquia pra ver ou viver a situação triste na qual essas pessoas vivem, até porque eles estão tentando fugir e estão cada dia mais perto de nos... até que nos juntemos a elas.


Mandou muito bem. Como moro em Viena, é impossível ver, ler, pensar em outro assunto que não seja esse abismo. Meu único consolo é Deus e a multidão de gente ajudando por aqui. Mas tá difícil... *suspiro*


O seu texto cheio de sensibilidade fala da realidade que todos vivemos hoje. No Brasil eu vejo o mesmo abismo, e na França (europa inteira) também.
Bom, mas eu ainda acredito que esse tipo de hotel/turismo em localidades pobres trazem muito emprego e renda para a região, mesmo se como você disse 95% das riquezas estão nas mãos de outros. Se eles não pudessem trabalhar como camareiras, seguranças ou vender coisas na praia ou nas ruas, viveriam de quê?
O contraste é que muitos paises africanos (ou da America do Sul/Central, Asia) correm atras da prosperidade material e progresso e enquanto muitos turistas de paises prosperos sonham com mais simplicidade. Bom, falo dos turistas meio "mochileiros" que vão ao encontro da população, cultura, e não os turistas que ficam fechados em grandes hotéis sem nenhum contato com a realidade local que você tão bem explicou!

Respondi seu comentario sobre "praticar esportes"!
Bj


A gente bem sabe que os abismos sempre existiram desde que o mundo é mundo. Uns estarão numa boa, outros numa pior. A pior miséria de um povo é a ignorância em que vivem. Será que a gente entende certo o que é a miséria? Eu compreendi alguns pontos de vista quando, num programa de tv, holandesas se apaixonaram por africanos e foram viver em seus países. A falta de conforto era visível, mas isso não implica miséria, pobreza. Tinham comida na mesa, moravam em locais rústicos, mas aos olhos de muitos, seria a miséria. É preciso pensar...e oh, tem muita gente na rua, pedindo esmola, com casa própria e comendo do bom e do melhor. E tem gente que sabe que turista tem coração mole rs visto o grupo destes mesmos e muitos africanos q formam quadrilhas virtuais pra extorquir dinheiro de gente meio boba. Rs ja vi reportagens na tv.rs


Mas que sacanagem do hotel, mas vocês tiveram sorte e acharam outro hotel bacana. Bjs

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